Lembro de uma vez, muito tempo atrás, na universidade, quando vi aquele aviso no bebedouro: “Bebedouro quebrado! Favor não usar”.
Era uma mensagem escrita a caneta numa folha arrancada de um caderno espiral, colada com durex no bebedouro.
No dia seguinte, ao passar pelo bebedouro, vi que havia uma resposta escrita no aviso por algum aluno: “Por que não conserta?”.
Achei engraçado. A resposta era petulante e certamente deixaria quem escreveu o aviso irritado.
Então, no outro dia, já havia a réplica: “Não consertamos por que temos muito trabalho. Não somos como você, “estudante” cachaceiro filhinho de papai.”
Essa foi boa! Pensei…
Como esperado, no dia seguinte, já havia uma tréplica, bastante irônica: “Trabalha? hahahaha (naquela época ainda não havia o kkkkkk).
A discussão estava tão boa que um dia, na sala de aula, perguntei a um amigo meu: “Você está vendo aquela discussão lá no bebedouro?”. Mas, para minha surpresa, ele nem sabia do que eu estava falando. Acho que eram poucos os que estavam acompanhando aquela treta lá no corredor da universidade.
Porém, naquele dia, quando ia embora e passava pelo bebedouro, vi que o aviso tinha sido arrancado.
Pensei que talvez um dos sujeitos teria perdido a paciência, ou algum funcionário mais sensato resolvera acabar com aquela discussão idiota e evitar maiores problemas.
Hoje percebo que, ao ver que não havia mais aviso, nem passou pela minha cabeça o problema que dera início àquela discussão. Afinal de contas, o bebedouro tinha sido consertado ou não? Nunca saberei, pois nem me lembro de ter verificado se estava funcionando nos dias seguintes. Na verdade, eu tinha ficado era decepcionado por que a treta tinha acabado e só pensei se alguém tinha ganhado ou não.
Assim, aquela treta improvisada dos anos antes da internet era o prenúncio do que aconteceria nas redes sociais. Os tuites, posts e comentários de hoje são os equivalentes àquele bebedouro quebrado. Porém, agora tudo é potencializado por notificações, alertas, curtidas e outras reações que fazem centenas se engajarem nas discussões, e fiquem correndo de bebedouro quebrado em bebedouro quebrado, sem nunca se preocuparem se a questão essencial foi resolvida ou não.
Fonte: coisas que um dia postei num blog (ideiasrepostadas-home-blog, no wordpress), mas depois apaguei. Arrependi-me, muito tempo depois, e então reencontrei o post lá na Wayback Machine.
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