A Dádiva das Zebras

nilson44(41)
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Um dia, quando ia procurar alguns frutos naquele aglomerado de árvores em meio a savana, o macaco chegou exatamente quando as zebras já estavam indo embora. Não encontrando nada para comer ali, ele resolveu tentar mastigar umas folhas. Para sua surpresa, viu que elas faziam um efeito interessante na sua mente. Foi assim que o macaco teve sua primeira viagem.

Isso aconteceu por causa de uma defesa inusitada que as árvores usam contra as zebras. Elas produzem uma substância amarga e tóxica para evitar serem comidas. Mas, como crescem num ambiente de recursos escassos, elas não são venenosas o tempo todo, pois seria muito custoso produzir veneno usando o que lhes faltaria para o desenvolvimento e processos vitais. Então, somente quando um grande rebanho começa a se alimentar delas, é que elas começam a ficar tóxicas. E o mais impressionante é que elas emitem no ar uma substância que pode ser captada pelas outras plantas. Desta forma, sinalizam que é hora de se tornarem tóxicas (Elas comunicam-se! Alertam as outras sobre o perigo!).

Talvez pela mistura de toxidade, volatilidade e capacidade de serem sentidas até por vegetais, aquelas folhas eram especialmente psicoativas para o macaco.

Então, depois de provar as folhas, o macaco passou a ir sempre naquele lugar. Às vezes sozinho e outras com seus amigos. Mas sempre depois que as zebras partiam.

Nas árvores, o macaco passava muito tempo mastigando as folhas e curtindo o efeito, entre os galhos, na sombra fresca e ouvindo os sons da interface da mata com a savana.

Um dia, quando ia para as árvores, deu de cara com o gorila. E o grande primata foi logo implicando com ele: “O que é que você tá fazendo no meu território? Dá o fora daqui!”

O macaco, então, tentando evitar encrenca, falou: “Amigo, aquelas árvores ali tem umas propriedades bem legais. Vamos lá que eu te mostro como aproveitá-las.”

O gorila, então, foi com o macaco até as árvores. Mas, antes disso, garantiu: “Se der alguma coisa errada, eu te parto ao meio, seu magrelo!”

Aconteceu que o gorila gostou demais das folhas e, por isso, se tornou mais amistoso com o macaco a partir daquele dia.

No dia seguinte, logo ao acordar, o gorila já correu para as árvores.

Chegando lá e vendo as zebras se aproximando, ele já foi as expulsando do local: “Sai daqui, suas magrelas ridículas! Esse lugar já tem dono!”.

Porém, quando começou a mastigar as folhas, não sentiu efeito nenhum. Nervoso e contrariado com aquela situação, ele ficou mastigando de tempos em tempos algumas folhas sem nada conseguir. Até que o macaco chegou.

Ao ver aquela situação, o macaco o explicou: “Amigo, as folhas somente ficam boas depois que muitas zebras comem parte delas. Vamos ter que esperar!”

Então, os dois se afastaram das árvores e ficaram esperando as zebras voltarem e comerem a parte delas.

O gorila ficou muito contrariado e nervoso durante a espera. Enquanto o macaco ficou dando uns pulos pelas redondezas.

Enfim, as zebras partiram e eles foram curtir a sua parte. Tinham o resto do dia para aproveitar!

Algum tempo depois, já tranquilo e satisfeito, o macaco viu que era hora de ir fazer outra coisa. Então, disse: “Até logo gorila, não aguento mais. Fica na boa aí, amigo!”

Já o gorila mastigou as folhas até elas começarem perder o efeito. Até que, finalmente, partiu.

Mas, no caminho para casa, o grande primata resolveu ir mais longe para ver se não havia outras árvores onde as zebras também comiam e criavam outros oásis psicoativos .

Então, à distância ele viu um grande aglomerado de zebras, veados, gnus e outros animais. Ele se aproximou empolgado do local acreditando que ali tinha alguma coisa. Mas logo percebeu que os bichos estavam só bebendo água.

Porém, quando se aproximava, o gorila viu que a maioria dos animais estava partindo apresadamente. Então, ele pensou: “E se o mesmo efeito das árvores acontece com a água? E se quando os animais deixam de bebê-la e partem, a água também adquire propriedade psicoativas!”

Então, ele foi em direção ao corpo d’água. Ele foi caminhando depressa em direção oposta aos animais que se afastavam. O gorila foi ansioso para tomar um gole daquela água.

Mas, quando o grande primata chegou à beira da água, ele deu de cara com um gigantesco crocodilo. Era aquilo que afugentava os outros animais, percebeu ele tarde demais. Como um raio, o crocodilo abocanhou o gorila e o puxou para o fundo da água. Depois emergiu e o despedaçou num espetacular giro da morte.

No outro dia, o macaco estava lá no topo da árvore comendo suas folhas psicoativas. Nem estava se lembrando mais do gorila quando alguém comentou o que acontecera com o tal primata. O bichão teria ficado muito doidão e arrumado treta com crocodilo. Um macaco então brincou: “Gorila que acompanha macaco morre de crocodilada!” E todos caíram na gargalhada.

Naquele momento, ali nas redondezas, voava a grande águia comedora de macaco. Ela também já aprendera a chegar quando as zebras se vão. A grande predadora se animou com aquelas gargalhadas e tentou avistar algum macaco distraído perto da copa das árvores.

Naquele dia, talvez, algum macaco acabaria viajando bem mais alto do que o previsto.

A Dádiva das Zebras | Ecency