Entrando num Vespeiro

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Entre as formigas que ziguezagueavam no chão, havia uma maior que se contorcia como se tivesse sido pisada por alguém que passou por ali. Então, dei nela uma pisada para acabar com o seu sofrimento. Isto era uma coisa que aprendera com meus pais quando ainda era pequeno. Eles diziam: “Acaba de matar a pobre coitada! Ela está sofrendo.”

Mas formigas sofrem? Acho que sim (talvez por ter sido condicionado a pensar desse modo pela influência dos meus pais). Mas, de qualquer forma, sinto me privilegiado por tão alto grau de empatia. Parece-me o mais alto grau possível: se incomodar com o sofrimentos de insetos.

Mas, de repente, me pego a pensar:

Deve haver muitos trilhões de insetos. Milhares (ou milhões?) para cada humano. E, em pensar nisso, constato que nesse exato momento há bilhões de insetos sofrendo de todas formas imagináveis (queimados, esmagados no bico de pássaros, desmembrados, presos pela tensão superficial da água, envenenados…).

Fico na duvida: é bom ou ruim acreditar que os insetos sofrem? De um lado saber que os humanos são capazes de tão alto grau de empatia, mas, por outro, perceber que a quantidade e intensidade do sofrimento neste mundo é infinitamente maior do que podemos conceber.

Esses pensamentos me fizeram lembrar dos espíritas que acreditam em reencarnação. Eles parecem nunca pensar na questão do samsara:

Se há reencarnação, nasceremos um número incontável de vezes nas mais diferentes condições. Teremos os maiores prazeres imagináveis mas também os maiores sofrimentos possíveis. Parece-me que a quantidade e intensidade dos sofrimentos possíveis superam extraordinariamente os prazeres. Valeria a pena passar por tudo isso? Todas formas de tortura, doenças terríveis, afogamentos…?

Fico com a sensação de que existir é como ter entrado num vespeiro. Fico com um formigueiro na cabeça.


Fonte: coisas que um dia postei num blog (ideiasrepostadas-home-blog, no wordpress), mas depois apaguei. Arrependi-me, muito tempo depois, e então reencontrei o post lá na Wayback Machine.

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