O primo mais velho pediu aos dois menores para levantar o arame farpado da cerca para furtar mexericas no terreno vizinho. Então, ele pegou as mais maduras, deu uma aos pequenos e depois distribuiu o resto para família. Não tendo ninguém questionado a origem.
Os pequenos não tiveram nenhum medo já que não tinha risco deles serem pegos já que estavam do outro lado da cerca.
Um dos pequenos disse depois que o medo não seria só de ser pego e apanhar do dono do terreno, mas, principalmente, ser pego e ter que justificar sua ação a seus pais. Ele sabia que não tinha explicação. Era injusto o dono do terreno, que cultivara o pé de mexerica e tinha a expectativa de comê-las, de repente dar de cara com o pé limpo.
Já o menino mais velho disse aos pequenos que deviam ficar tranquilos, afinal todo mundo comera as mexericas sem questionar e agora não seria justo ninguém levar uma surra por isso. Todos já estavam errados.
Assim, no mundo há os que ultrapassam a cerca e os que “só” levantam o arame farpado. Há os que tem medo de uma surra ou castigo, e os que tremem diante da possibilidade de uma simples repreensão. Há até aqueles que auto infligem o próprio castigo, que é aquela terrível vergonha de não ter explicação para o que se fez. Além disso, até os que punem podem acabar indiretamente envolvidos na trama das mexericas.
Fonte: coisas que um dia postei num blog – zenro4_wordpress – mas depois apaguei. Arrependi-me muito tempo depois, então reencontrei lá na Wayback Machine.
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