O Unguento

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Frederico despiu-se com cuidado. Pendurou os andrajos puídos no gancho pregado por trás da porta da cabana e retirou a garrafinha verde do nicho da parede que no dia a dia estava oculto por um quadro, um retrato de uma mulher morena de olhos fechados.

O unguento estava quase no fim e Frederico temia que acabasse antes dos gelos do Inverno derreterem. Por isso media cuidadosamente as gotas do unguento para uma malga para ter a certeza que não desperdiçava nenhuma. Tinha sido um viajante, um mendigo que lhe deu a garrafita verde em troca de pão duro barrado com manteiga e vinho aquecido com especiarias. Já lá iam dez anos desde esse primeiro encontro fatídico. Desde aí, o mendigo batia-lhe à porta todas as primaveras quando as grinaldas de giesta adornavam as portas por todo o lado para comemorar o renascer das árvores e o regresso dos pássaros.

Cada ano que passava, o mendigo aparecia mais curvado e inseguro nos passos. Frederico nunca tinha arranjado coragem para lhe fazer as perguntas necessárias:

Quem era ele? De onde vinha? Para onde ia? De que era feito o unguento que trocava sorridente por uma refeição e o consolo de uma malga de vinho quente?

O mendigo parecia simpático, inofensivo, mas ao mesmo tempo, quando o observava, Frederico dava consigo a pensar que ele era uma pessoa capaz de qualquer coisa pois tinha um brilho feroz nos olhos que destoava com os gestos pacientes que depositava em tudo o que as suas mãos tocavam.

Frederico não o podia culpar de nada. Sempre que espalhava o unguento no corpo até ficar envolvido naquele aroma estranho de madressilva e menta recordava o momento em que o mendigo retirara a garrafita verde das pregas da capa e lhe dissera:

─ Aqui tens um segredo em paga pela tua generosidade. Usa-o bem, mas tem cuidado irmão, é magia antiga e contém ingredientes raros.

Foi a primeira vez que Frederico o viu sorrir e notou os dentes brancos e afiados a reluzir à luz das velas. Desde aí suspeitava que o mendigo era um mago disfarçado e como depois descobriu não estava longe da verdade.

Assim que terminou de se besuntar com o unguento perfumado, Frederico lambeu os dedos com avidez. Já há muito que aquele sabor quente e aveludado se tinha tornado um vicio que lhe sussurrava em noites frias, aos ouvidos, palavras desconhecidas.

Já anoitecia quando abriu a porta da cabana. O vento entrou aos remoinhos pela porta aberta carregado de flocos de neve. Tinha sempre o cuidado de não usar o unguento em dias em que não chovia ou em que não nevava. Sabia que havia o perigo de ser seguido se as forças da natureza não ajudassem a cobrir-lhe o rasto.

Frederico caiu desamparado na soleira da porta, enquanto no céu a lua gigante derramava sobre a terra a sua luz difusa e esperava com mimo, como um gato a ronronar, pela metamorfose de Frederico.

Ele, como sempre, uivou três vezes: a primeira vez de horror, a segunda de espanto, a terceira vez de deleite pelos sentidos repentinamente amplificados. Coberto de pêlo, a quatro patas, Frederico correu para o bosque como um relâmpago para responder ao chamamento da alcateia de lobisomens que aguardava.


unguento2.jpg

A imagem é minha, um fractal criado no Sterling2 e no Gimp na semana passada.

O Unguento | Ecency