Adolfo vivia só na sua casita da praia, alimentava os cães, os gatos e os pássaros e quando chovia refugiava-se em casa a escutar os insectos procriar na árvore gigante que havia no centro da sala e se erguia, mais alta que o tecto, em direcção ao céu. Quando as tempestades rugiam em conjunto com o mar, Adolfo sentava-se debaixo da árvore com um cobertor até estar completamente empapado e gelado por causa da chuva que escorria pelo buraco que havia no tecto para a árvore poder crescer em liberdade. Só então sorria.
Quando o sol brilhava, Adolfo corria junto às ondas até ao farol que se erguia minúsculo no horizonte e voltava cansado e suado.
Um dia tudo mudou. Numa noite fria de Inverno, em que a chuva e o mar lutavam engalfinhados, Adolfo ouviu um ruído surdo junto à porta de casa, acompanhado de um gemido baixo mas persistente. Na soleira da porta encontrou Ifigénia nua, enrolada em sargaços, a arranhar a porta com as mãos enregeladas. Adolfo acolheu-a, alimentou-a e vestiu-a com o mesmo zelo que dedicava aos animais abandonados e em pouco tempo Ifigénia corria como uma gazela pela casa, entrançava flores nas cortinas, saltava de ramo em ramo e fazia piruetas como se fosse um esquilo.
Ao entardecer, sentada numa rocha, Ifigénia penteava os longos cabelos negros com um pente dourado e sorria às gaivotas que se aproximavam.
Adolfo ficava a observar da janela e por mais que desse volta ao miolo não conseguia discernir porque é que Ifigénia não falava, apenas cantarolava e ria. Outro dos mistérios sem solução é que praticamente também não comia. Ifigénia bebia leite com avidez e debicava pêras e tudo o resto que Adolfo lhe trazia, rejeitava. Além disso escondia o pente dourado debaixo de uma rocha, e para Adolfo era esse o maior mistério de todos.
Ele desconhecia as histórias das mouras encantadas que guardavam tesouros no ventre da terra, ou em cavernas protegidas de olhares indiscretos pelo mar, e esperavam por alguém para as desencantar de sortilégios lançados há milénios.
Ifigénia tinha-se cansado de esperar. Queria sentir o sol e o canto dos pássaros. Tinha evadido com sucesso todas as armadilhas e tinha-se escondido na primeira casa habitada que encontrou. Foi um feliz acidente para Adolfo que o mero acaso de viver ali o tivesse posto em contacto com aquele ser sobrenatural endiabrado.
Mas quis o acaso que no dia em que Ifigénia adormeceu na praia, confiada, Adolfo se chegou a ela sem fazer barulho, tirou-lhe o pente dourado que brilhava meio enterrado na areia, para analisar de onde provia.
Ifigénia acordou aos gritos, sentia começar dentro de si a metamorfose que a transformava em serpente com rosto humano, a maldição que só a magia do pente dourado mantinha ao largo.
Mas a magia quebrou-se nas mãos de Adolfo. O pente desintegrou-se em cinzas e Ifigénia desapareceu.
Adolfo ainda ali vive, sem desviar os olhos do mar...
A imagem foi previamente publicada na minha galeria do deviantart. É um fractal criado em 2011.