A Bandeja Celestial

nilson44(40)
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Aquele era o mais rico formigueiro do mundo. Nele havia cortadeiras super especializadas. Elas subiam nas árvores e cortavam de forma que o pedaço de folha fosse o maior possível e ainda capaz de cair com grande precisão no local onde as carregadeiras se concentravam. Havia também as que sabiam cortar para a folha cair inteira e com precisão.

Entre as cortadeiras, as mais eficientes e inovadoras podiam ir mais alto nos galhos para alcançar as folhas mais macias e fáceis de cortar. Podiam, quem sabe, chegar até os brotos (se fossem boas o bastante).

Havia também as carregadoras. Essas tinham vida mais dura. Era preciso carregar cada vez mais e em velocidade maior, devido a sempre crescente produtividade das cortadeiras. Mas as melhores podiam ganhar o privilégio de carregar os pedaços menores e, assim, quem sabe aprender a cortar com o tempo e energia que economizavam.

E, por fim, entre as excentricidades daquele formigueiro, havia as sacerdotes. Essas teriam se originado depois da visão de uma grande formiga que visitou o mundo superior. Aquela formiga voltara com uma revelação: “Há um formigueiro onde se carrega apenas pequenas folhas na horizontal e com um mínimo de esforço. É o mundo de imensa prosperidade para onde as formigas vão depois que morrem. Especialmente para as que trabalham freneticamente carregando os pesados pedaços de folhas até caírem e morrerem. Elas vão para um outro nível de existência. Onde todos podem ter o privilégio de serem servidos e também de servirem com estilo e sofisticação.”

Assim, no grande formigueiro, acreditava-se que a formiga que caía morta próxima a sua folha ia para um nível superior.

A folha que era carregada na vertical um dia caía na horizontal e sinalizava que era hora de ir para outro plano. Um mundo próspero onde a sofisticação e leveza se juntaria ao ato de servir. Um lugar onde todos podiam carregar elegantemente uma bandeja e também serem servidos com tudo do bom e do melhor.

Contava-se, também, que a cada vez que uma formiga dava de cara com um predador e caía fingindo-se de morta para não ser devorada, com o pedaço de folha caído na horizontal ao seu lado, também formava-se um sinal para o além. Era o sinal para os céus produzirem mais delícias para a bandeja celestial.

Assim, era mantida a ordem do mais produtivo formigueiro da Terra. As formigas continuavam trabalhando incansáveis e destemidas, sabendo que podiam melhorar, e com a esperança da recompensa maior no final.

O ritual de morte era simples e espontâneo, o pedaço de folha na horizontal ao lado do corpo morto, e depois um leve vento já levava tudo embora. O formigueiro não parava um segundo. Os sacerdotes só lembravam a todos do destino feliz da formiga que não voltara naquele dia.

Mas chegaria o dia em que uma formiga se extraviaria e, nas suas andanças, descobriria que os seres que carregam bandejas não são de outro mundo. Ela custaria a acreditar que o que permite tamanha prosperidade naquele mundo é algo assustador. Aqueles seres eram capazes de cortar e carregar qualquer coisa em suas bandejas. Eles cortavam árvores, o chão, os rios e até corpos de outros seres.

Aquela formiga – que viu todo o mal que sustenta algumas formas de paraíso – mostraria às outras que tudo era uma mentira e iniciaria a revolução. A revolução que terminaria com as trabalhadoras carregando os pedaços dos seus opressores em procissão.

Na procissão, elas ergueriam em celebração as falsas asas das sacerdotes, as cabeças decepadas dos soldados e o que sobrara da rainha. Então, naquele dia claro, muitas delas ganhariam asas e voariam para conquistar novos mundos. Enfim, os impostores estariam mortos e novas rainhas poderiam surgir.


Fonte: coisas que um dia postei num blog – wordpress blogspot – mas depois apaguei. Arrependi-me muito tempo depois, então reencontrei lá na Wayback Machine.

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