At 10pm he went to bed. He didn't cover himself because it was too hot. A spring wind blew in through the small, dark kitchen window and if anyone looked through it at that moment there would be distant flashes in the clouds that gathered at the edge of the horizon like a churning sea of overlapping layers of lead-gray vapor and bluish-white flashes that looked like ricochet through the Cumulonimbus cotton balls. The whole house lay in silence, a comfortable silence for that moment (from a time where solitude + silence did not harm him). He made sure to choose a day where there would be no disturbance, his roommate had traveled, the lady of the house who lived upstairs had also traveled, the only other presence in the house was the bitch of the lady upstairs, who had stayed Retained in the darkness of the environment imposed by the natural cadence of the night and would only see the light dawn at six in the morning, like a good poodle, it would remain quiet and uninteresting until the return of its owner. He made sure before he locked the doors and turned off the lights, leaving only his yellowed lamp on his headboard. He thought it best not to put any music on because that would interfere in parts of the process. Not that it would affect him neurologically, but it could be that that music ended up creating a kind of fissure or even a mnemonic abyss after the procedure.
He had been smart enough not to try to puncture his own vein. He had to find a very efficient argument to convince his friend who was a nurse to do this for him, and she worried about accepting the idea. He even had to provide a combination of venal serum and vitamins to show her and convince her that he wasn't trying anything different, more serious or dangerous than self-medicating with a vein in his veins. He didn't feel bad about lying to her because it wasn't for a bad reason, even though it might be relative. Watching in the half light of the lamp the access to his vein stuck with tape and that small tube that ensures that his blood does not come out, he felt strange, and for the first time that night he felt butterflies in his stomach. Was he safe? He wasn't so sure despite having watched the tutorials and read the mnemonic cleaning manual ten times. He didn't want to die or be crippled there in that bed. Although he had already agreed with himself that, if this solution he was preparing to carry out was not possible, then the other option would be death, as he could not find any doctor in Brazil who would accept the lobotomy procedure (which would be the closest (if much more aggressive) he could find to the then fortuitous find known as: "PTSD mnemonic equalizer"). Naturally he had not had success with Ketamine or Electroconvulsive therapy. Maybe because the problem wasn't neurotransmitter fluctuations, it wasn't dopamine or serotonin. It was the damn memory, the memories, the damn memories.
He decided he wouldn't wait any longer. Time passed, it had been half an hour since he had gone to bed, he needed to be fast, after all the procedure took more than two hours. He took the catheter that was waiting for him in the saline holder with a very refined mixture of N,N-dimethyl-1H-indole-3-ethanamine, 3,4-methylenedioxymethamphetamine, saponinic triterpenoids from Bacoside, Salvinorin A, Psilocybin and a dose considerable of a new benzodiazepine not yet cataloged in the West, but which has been the subject of studies mainly in Russia and China, called Kathyioprazam, which basically interconnected the chemical structure of a Cathinone with the structure of Flurazepam. The clear function of this neo-benzo was exactly to ensure that this absurd combo did not lead the patient to a state of psychotic break or severe panic, even though it is more likely that he would simply go off anyway, because the predicted dose for administration based on his weight (or equivalent for any weight) would suffice to put him in a state of immobile hypnotic trance or at least very limited movement.
Played the sound that came with the kit, basically an application instruction, breathing and finally, a delicate and well-produced setlist of binaural waves that would help stimulate mnemonic cleansing and calm any disturbance (even if the fine print of " virtual package insert" said that a small group of people, probably those with a Caucasian phenotype and typically with AB blood in addition to the incidence of high grades in math, tended to feel great discomfort and anguish with the chosen sound waves), when they realized they were already applying the yellowish and aqueous solution with the stylish glass syringe that came prepared and packaged in black plastic (to avoid loss of active principles by photosensitivity). He felt a slight burning with the entry of the substance into the bloodstream and little by little it took his arm and it didn't take more than a minute for him to go into a state of deep hypnogogia leaning towards delirium and before it was too late it closed access to his vein, he took the syringe out of his reach and in the blink of an eye it was gone.
Thômas H N Blum
PORTUGUÊS
Às vinte e duas horas ele deitou-se na cama. Não se cobriu por que estava muito calor. Um vento de primavera entrava pela janela da cozinha pequena e escura e se alguém olhasse por ela naquele momento veria longínquos clarões nas nuvens que se aglomeravam no limite do horizonte como um mar revolto de camadas sobrepostas de vapor cinza-chumbo e lampejos brancos azulados que pareciam ricochetear por entre as bolas de algodão Cumulonimbus. Toda a casa jazia em silêncio, um silêncio confortável para aquele momento (de uma época onde a solidão + silêncio não o prejudicavam). Ele certificou-se de escolher um dia onde não haveria perturbação, seu colega de quarto viajara, a dona da casa que morava no andar de cima também viajara, a única outra presença na casa era a cadela da senhora do andar de cima, que ficara retida na escuridão do ambiente imposto pela natural cadência da noite e só veria a luz raiar pelas seis da manhã seguinte, como uma boa poodle, permaneceria quieta e desinteressante até a volta da dona. Ele certificou-se antes de trancar as portas e de apagar as luzes, deixou apenas seu abajur amarelado aceso na cabeceira. Achou melhor não colocar nenhuma música por que isso poderia interferir em partes o processo. Não que fosse afetar neurologicamente ele, mas pode ser que aquela música acabasse por criar uma espécie de fissura ou até mesmo abismo mnemônico depois do procedimento.
Ele fora inteligente o suficiente para não tentar puncionar a própria veia. Precisou encontrar um argumento muito eficiente para convencer sua amiga que era enfermeira a fazer isso para ele, e ela preocupada custou a aceitar a ideia. Ele inclusive precisou providenciar uma combinação de soro venal com vitaminas para mostrar a ela e convence-la de que ele não estava tentando alguma coisa diferente, mais grave ou perigosa do que se auto medicar com soro na veia. Ele não sentiu-se mal em mentir para ela por que não era por um mal motivo, ainda que isso pudesse ser relativo. Ao observar na meia luz do abajur o acesso à sua veia preso com esparadrapo e aquele pequeno tubo que garante que seu sangue não saia jorrando ele sentiu-se estranho, e pela primeira vez naquela noite sentiu um frio na barriga. Era seguro? Não tinha tanta certeza apesar de ter assistido os tutoriais e lido o manual de limpeza mnemônica dez vezes. Ele não queria morrer ou ficar inválido ali naquela cama. Apesar que já havia concordado consigo mesmo que, se não fosse possível essa solução da qual estava se preparando para executar, que então a outra opção seria sim a morte, dado que não conseguiu encontrar no Brasil inteiro nenhum médico que aceitasse fazer o procedimento de lobotomia (que seria o mais perto (ainda que muito mais agressivo) que ele poderia encontrar do então fortuito achado conhecido como: "Equalizador mnemônico de PTSD"). Naturalmente não tivera sucesso com Ketamina, nem com Eletroconvulsoterapia. Talvez por que o problema não era oscilações de neurotransmissores, não era dopamina ou serotonina. Era a maldita memória, as lembranças, as malditas lembranças.
Ele decidiu que não iria esperar mais. O tempo passava, já fazia meia hora que deitara, precisava ser rápido, afinal o procedimento levava mais de duas horas. Pegou o catéter que aguardava-o no suporte da solução salina com uma mistura muito requintada de N,N-dimetil-1H-indolo-3-etanamina, 3,4-metilenodioximetanfetamina, triterpenóides saponínicos de Bacoside, Salvinorina A, Psilocibina e uma dose considerável de um novo benzodiazepínico até então não catalogado no ocidente, mas que tem sido tema de estudos principalmente na Russia e na China, chamado Kathyioprazam, que basigamente interligava a estrutura química de uma Catinona com a estrutura do Flurazepam. A função clara desse neo-benzo era exatamente de garantir que esse combo absurdo não levasse o paciente a um estado de surto psicótico ou de pânico severo, ainda que o mais provável é que ele simplesmente fosse apagar de qualquer forma, por que a dose prevista para administração baseada em seu peso (ou equivalente para qualquer peso) seria suficiente para colocá-lo num estado de transe hipnótico imóvel ou ao menos de movimentos bastante limitados.
Deu play no som que veio junto com o kit, basicamente uma instrução de aplicação, respiração e por fim, um delicado e bem produzido setlist de ondas binaurais que ajudariam a estimular a limpeza mnemônica e acalmar qualquer perturbação (ainda que as letras miúdas da "bula virtual" dissessem que um pequeno grupo de pessoas, provavelmente as com fenótipo caucasiano e tipicamente com sangue AB além de incidência de notas altas em matemática tendiam a sentir grande desconforto e angustia com as ondas sonoras escolhidas), quando se deu conta já estava aplicando a solução amarelada e aquosa com a estilosa seringa de vidro que já veio preparada e embalada num plástico preto (para evitar perda dos princípios ativos pela foto sensibilidade). Ele sentiu um leve ardor com a entrada da substância na corrente sanguínea e pouco a pouco foi tomando seu braço e não levou mais do que um minuto para que ele entrasse em um estado de hipnagogia profunda pendendo para o delírio e antes que fosse tarde demais fechou o acesso à sua veia, tirou a seringa para longe de seu alcance e num piscar de olhos já não estava mais ali.