devo-te.

osazuisdela(45)
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Devo-te.
Devo nunca esquecer-me que a minha mãe, antes de o ser, já foi menina e agora é mulher.
Devo memorizar com afinco todas as cores dos passarinhos que lhe saem das gargalhadas.
Devo repetir, com orgulho, palavras como “molete”, “sostra”, “manjerona” e letras de músicas como esta: “Todos me querem, quero só um. Quero o meu amor, não quero mais nenhum. (…)”.
Devo ouvir “eu sei que vou te amar…” e lembrar-me dela.
Devo comer puré e lembrar-me das vezes em que a fiz sofrer por ter “grumos” (as natas no leite também contam).
Devo deitar-me na cama, primeiro para o lado esquerdo para refletir sobre a minha vida e só depois para o lado direito para dormir.
Em caso de pesadelo, deverei virar-me para o outro lado para mandar à vida o sonho mau.
Devo arrancar heras e dizer “quem pela hera passou e não arrancou de seu amor não se lembrou” e pensar nela com um sorriso.
Devo bater a massa dos bolos no sentido dos ponteiros do relógio, para não me parar a digestão.
Devo recordar-me de a ouvir e ver: cantar, dançar e sorrir quando lhe apetecia chorar.
Devo fixar as vezes em que a vi “chorar às escondidas”.
Devo entender todas as vezes em que teve medo.
Devo tentar replicá-la em força, garra e heroísmo.
Devo por às claras a mulher rara que é. Sempre.
Devo querer ser, sempre, quase como tu.
Devo dizer-te que te amo e devo amar-te, mesmo sabendo, que se não o devesse fazer, o faria na mesma, com a mesma intensidade que o faço agora e para sempre. E mais um dia. E outro. Até que o infinito nos separe.
Devo-te a vida e o amor todo que conheço.
Nunca te poderei pagar.
Devo-te existir-me, até deixar de o fazer.

Texto e imagem osazuisdela@osazuisdela

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