Essa emblemática canção é símbolo da Legião e todo ano faz parte de uma belíssima procissão de Quinta-feira Santa na Espanha.
A religião católica é parte integrante e viva da nação espanhola. A devoção desse povo é particularmente reconhecida por todo o mundo. Assim, o país é lar das mais diversas manifestações da fé católica. Em Málaga, particularmente, na Semana Santa de todo ano, veteranos da Legião Espanhola (criada em 1920) protagonizam uma procissão carregando uma figura de madeira do Cristo da Boa Morte (esculpida por Pedro de Mena em 1660) enquanto entoam a canção "O Noivo da Morte" (El Novio de la Muerte) diante de uma multidão.
Muitas pessoas comparecem acompanhar esse emocionante ritual onde o espírito da legião canta alto e faz ecoar nos corações virtudes combativas daquelas que movem os mais valorosos soldados à luta. Da mesma forma, a demonstração de fé católica junto ao desprezo pela morte terrena certamente traz à tona no coração daqueles espanhóis o orgulho de sua Legião, de sua pátria e de sua fé. E, nos braços dos bravos legionários, é carregada justamente a imagem daquele que venceu a morte.
A letra da música, que traduzo ao fim do texto, conta a história de um soldado que combatia com muita coragem e que sempre ia adiante ao combate. Poucos sabiam de sua origem e de seus motivos, mas deduziam que ele carregava uma grande dor no coração. Quando lhe perguntavam quem ele era, ele só falava que era um homem a quem a sorte feriu com garras de fera; que era um noivo da morte que iria se unir em laço forte com tão leal companheira. Quando finalmente morre, junto ao seu corpo os soldados encontram uma carta que revelava que sua noiva havia morrido e que ele havia entrado na Legião para ir de encontro à morte e se juntar à noiva amada. O amor por ela foi a chama que inflamou sua vontade e seu ardor em luta.
Conta-se que, em 1921, após uma derrota na Batalha de Annual, onde morreram entre 7.000 e 10.000 soldados espanhóis, muitos soldados estavam no teatro assistindo uma peça onde era cantada a canção. A comoção da época era grande e, quando na peça cantou-se El Novio de la Muerte, o impacto foi geral, de modo que o fundador da legião convocou o diretor da banda militar para criar uma versão marcial da música, que passou a ser entoada em atos solenes, como na procissão da semana santa.
A história da música se baseia no que ocorreu em 7 de janeiro de 1921, em Beni Hassán. Numa ação militar durante a Guerra do Rif, faleceu em consequência das feridas um cabo da primeira bandeira da Legião Baltasar Queija de la Vega. No seu bolso foram encontrados uns versos que acabava de escrever, emocionado pela recente morte de sua noiva. Pouco antes, esse cabo teria expressado aos seus companheiros o desejo de reunir-se prontamente com ela na outra vida.
El Novio de la Muerte fascina porque convoca o espírito heroico a desprezar a própria vida em nome de algo que está além dela. No caso, o desprezo se dá pela amada, à qual deve se unir como um compromisso de honra que suplanta os limites da existência. Automaticamente, o soldado se torna um noivo da morte e, até que chegada seja a hora de encará-la com um sorriso no rosto, permanecerá na companhia dessa fiel companheira. Quantos que não iam à Legião para lutar por algo maior? Algo que transcendia a própria vida, uma esperança, uma promessa, um sacrifício... Ao ouvir a comovente história do cabo, certamente todos aqueles legionários que carregavam no coração honestidade para com seus propósitos também se sentiram noivos da morte.
Compartilho com vocês o vídeo, gravado em 2016 e, em seguida, a letra traduzida da música:
O Noivo da Morte
Ninguém no Terço sabia
quem era aquele legionário
tão audaz e temerário
que na Legião se alistou.
Ninguém sabia sua história,
mas a Legião supunha
que uma grande dor lhe mordia
como um lobo, o coração.
Mas se alguém "quem era" lhe perguntava
com dor e rudeza lhe respondia
Sou um homem a quem a sorte
feriu com garra de fera;
sou um noivo da morte
que vai se unir em laço forte
com tão leal companheira
Quando mais bruto era o fogo
e a peleia mais feroz
defendendo sua Bandeira
o legionário avançou.
E sem temer a pressão
do inimigo exaltado,
soube morrer como um bravo
e a bandeira resgatou.
E ao regar com seu sangue a terra ardente,
murmurou o legionário com voz dolente
Sou um homem a quem a sorte
feriu com garra de fera;
sou um noivo da morte
que vai se unir em laço forte
com tão leal companheira
Quando, ao fim lhe recolheram,
entre seu peito encontraram
uma carta e um retrato
de uma divina mulher
E aquela carta dizia:
"... se algum dia Deus te chama
para mim um posto reclama
que buscar-te logo irei".
E no último beijo que lhe enviava
sua última despedida lhe consagrava.
Para ir ao seu lado te ver,
minha mais leal companheira,
fiz-me noivo da morte,
lhe apertei com laço forte
e seu amor foi minha Bandeira!