Hipermodernidades 15 - O bem distingue-se do mal

A pressa desvincula, faz do homem um vagabundo de cenários em busca do paraíso que não existe, um viajante que não observa, sem memória e sem afecto.

Parar para observar é cada vez mais raro.

Viaja-se em cinco dias para conhecer cinco cidades. Fotografam-se ícones, desconhece-se o seu valor. Inventamos obstáculos num jogo lamentável de inconsequências. O prazer de contemplar deu lugar ao prazer da superação, do recorde, de ver tudo num ápice, mais do que o outro, numa concorrência desenfreada que nos retira o prazer sensual do olhar. A «second life» virtual e enganadora arrebata o protagonismo do que é real, da autenticidade humana na rua.

Criam-se máscaras que tomamos como amigos com os quais intercambiamos ficções. E nada mais. Porque este tipo de esconderijo não o permite. Inventa-se uma personalidade, um modo de estar, sem riscos, que existe no desejo de cada um ser outro. O que pode dar lugar à prática da arte do engano, da camuflagem, da proposta desonesta, da vigarice, do crime. O afecto e a proximidade dilui-se nas relações virtuais descartáveis. A solidão é um modo de vida que alimenta o espectáculo do «faz de conta» como um regresso pernicioso à infância.

E o que resta? A perda do som da fala. O contacto da pele. Só se vê o que se mostra em grandes planos que escondem o plano geral. Por outro lado, nunca se falou tanto, escrevendo, afirmando o que não se é, o que não se tem, o que não se pode ser. Cria-se a ficção de si porque se sabe que se comunica com a ficção do outro numa classe social que se desconhece. E vale nos dois sentidos. Os que exibem o que não possuem, os que escondem o que têm. Convive-se muito, mas no engano. Gera-se desconfiança, sabendo que ela faz parte do jogo e do seu encanto. Põem-se à prova emoções, experimenta-se o outro, montam-se armadilhas por vezes perigosas, humilha-se, bajula-se, insinua-se, vende-se, compra-se. Tudo por várias mãos que não se vêem. Que não nos tocam. Num ambiente aparentemente asséptico onde habitam milhões de vírus ocultos.

O acesso democrático às novas tecnologias vulgariza os aspectos raros do ser. Cria a ilusão de poder. À distância de um gesto. Ao impulso emocional. É uma mais-valia para o acesso ao conhecimento, um perigo para o desconhecimento, para a ignorância. Se há duas ou três décadas, para a maioria das pessoas iletradas ou pouco informadas, tudo o que se ouvia na televisão ou se lia no jornal chegava com o selo incontestável da verdade, hoje, a maioria dos utilizadores cibernautas, toma como verdadeiro tudo o que a internet expõe. Sem critério, sem crítica, sem questionar. Criam-se factos falsos, eventos inexistentes, no planeta babélico e virtual das mil e uma ficções por fracção mínima de segundo.

Mas também existem os factos verdadeiros e a boa informação, o artigo científico, a reportagem autêntica. Como distinguir? Pelo passado acumulado de quem lê livros. De quem sempre frequentou bibliotecas, livrarias, cinematecas, exposições, espectáculos, conferências, recitais, concertos, colóquios, debates. E como se faz? Começando a fazer. Simplesmente. Com o desejo de poder crítico. Com a noção clara de que a curiosidade é o melhor motor de busca para alimentar o nosso conhecimento e passar do convívio gutural no seio de uma comunidade ficcional, ignorante e estridente, à solidão acompanhada do saber, mas também no encontro enriquecedor de seres curiosos como nós. E estas comunidades existem. São estas comunidades espalhadas pelo infindável planeta tecnológico que já estão a mudar o sentido do desejo de se ser humano em toda a dimensão pacífica do conhecimento. E já não é uma utopia. O bem distingue-se do mal.

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Foto: José Lorvão

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