Hoje foi um daqueles dias… Nada correu como eu planeei. Dormi pouco e mal, quase cheguei atrasada ao trabalho, tive de lidar com pessoas de quem sou obrigada a gostar e com situações que me incomodam no mais profundo do meu ser, fechada num trabalho que, por hoje, não me deixou ver a luz do dia. Talvez noutro dia igual a este, com outro estado de espírito, não achasse tudo isto assim tão mau, mas hoje, possuída pela minha energia negativa, tive um típico dia NÃO. Grrrr!!
Chegada a casa do trabalho, decidi que não podia terminar assim o dia. Precisava de descarregar frustrações. Suá-las, mais precisamente. Peguei no saco do ginásio e fui treinar. E que treino maravilhoso! Quando terminei sentia-me outra, energias completamente renovadas.
OK, problemas do dia resolvidos, estava na hora de voltar para casa. E qual não é o meu espanto quando, a meio do meu caminho, começa a chover torrencialmente!! Uma daquelas chuvas que só quem vive no Porto sabe como é, e eu sem guarda-chuva, acabadinha de tomar banho! E a frustração voltou… depois do dia que tive, tinha mesmo de me acontecer isto!
Depois de várias tentativas (falhadas, claro) de me proteger daquele temporal, veio a mim, como que por milagre, o belíssimo pensamento do “que se lixe!”. Perdido por cem, perdido por mil, certo? Já sabia que ia chegar a casa encharcada, era a única maneira de chegar. Ia estar a chatear-me para quê?
Assim, sem saber muito bem porque o fiz, tirei as mãos dos bolsos, abri o casaco e desfiz o capuz que tentei improvisar com o cachecol.
Subitamente comecei a aperceber-me de que não era assim tão mau. É só água! Quantas pessoas por este mundo fora não gostariam de estar ali debaixo do mesmo céu que eu? E porque é que nós fugimos da chuva? Porque é que a detestamos afinal? Continua a ser só água.
E dei por mim a abrandar o passo… a sentir as pingas a escorrer pelo cabelo, pelo nariz, pelas costas, a água a entrar nos meus sapatos. Sentia as mãos geladas, mas não tinha frio absolutamente nenhum. Foi mágico!
Só me apetecia olhar para cima e assistir àquele espetáculo da natureza. Só me apetecia sorrir, não me perguntem porquê. Estava tão absorvida no momento que me enganei no caminho para casa! E sabem que mais? Não me importei. Não caminhei pelo abrigo das varandas, não corri nas passadeiras, não evitei nenhuma poça de água e não pensei num único problema.
Aquela chuva não estava simplesmente a molhar-me, estava a lavar o meu espírito de tudo o que o estava a carregar de negatividade. E eu estava a sentir cada pinga e a imaginar essa mesma negatividade a escorrer de mim com a água e a desaparecer no meio dela. Experienciei ali uma sensação de paz, que já há muito tinha esquecido. E que sensação maravilhosa!
Finalmente chegada à porta do meu prédio, com uma pontinha de pena de que aquele momento tivesse acabado, parei, olhei à volta e, não vendo ninguém, voltei para a chuva. Só mais um bocadinho. Deixei que me caísse na cara por mais uns segundos e, antes que chegasse ao ponto de me interrogar da minha sanidade mental, dirigi-me para a porta outra vez.
Quais eram os meus problemas, mesmo?
Não sei se de frio ou de emoção, o que é certo é que as minhas mãos tremiam e não acertavam com a fechadura! Nisto, a vizinha abre-me a porta do lado de dentro, olha para o meu estado patético e diz: “Isso é que foi uma molha, menina.”
Eu sorri e pensei: “A melhor da minha vida.”
"Life isn't about waiting for the storm to pass, it's about learning to dance in the rain."