Ao fundo uma luz branca sem fronteiras espera por mim. Um longo corredor de portas sem porta e fotografias penduradas na corda da memória por molas que se vão soltando à minha passagem. Não há medo só branco, lá ao fundo, branco, avanço tranquilo e em paz. Caminho de regresso à fonte, à primeira luz, à primeira das memórias revelada ainda a preto e branco, só branco. Caminhar para esta finitude, que alguém deu o nome de morte, afinal é apenas o regresso à nascença, à primeira luz que viu romper o ventre, ao branco. Atrás, as portas já não são, à medida que prossigo aproximam-se de mim fotos quase esquecidas no sótão do meu álbum, curiosamente ou não, não me cruzo com as más fotos, o bicho da memória encarregou-se por mim de as reduzir a pó, ou foram barradas à entrada desta etapa que vai começar. Pela primeira vez tenho certezas. As dúvidas, as perguntas nunca respondidas caem-me dos bolsos, são os últimos vestígios do espaço que ainda ocupo. As linhas apagam-se na palma das mãos como uma onda leva juras de amor eterno escritas na areia enquanto o mar vem lamber docemente uma praia. Pela primeira vez acredito que serei imortal. Branco vou ser, nessa tela onde todos os quadros começam, e o branco, esse sim é imortal. Assim serei eu, nas vossas memórias, branco, de todas as cores.
Quanto a nós, enquanto a próxima pintura não é a nossa, urge combinar todas as tintas nesta paleta eternamente inacabada que é a vida e pintá-la por inteiro e viver,