Perguntaram-me nesta madrugada se eu "acredito em algo que não possa provar, para além da questão de deus e religião". A perguntante me conhece há muitos anos, sabe do meu ateísmo e quis expandir o escopo da conversa. Inspirou este texto, primeiro original meu aqui no Steemit.
A questão veio em momento auspicioso, pois eu acabei de relembrar do argumento do dragão, baseado (não sei até em que nível) em um livro de Carl Sagan: O Mundo Habitado por Demônios. Adapto para meu exemplo, com duas pessoas (A e B) conversando em linguagem coloquial:
A - Você sabia que tem um dragão da minha garagem ?
B - Uau ! Você precisa me mostrar isso.
Ao chegarem na garagem, B não vê nada.
B - Mas... não tem nenhum dragão aqui...
A - Tem sim ! É que ele é invisível.
B - Ok, é um dragão invisível... Já sei ! Vamos pegar um pouco de farinha para ver as pegadas dele.
A - Então... ele não deixa pegadas, ele flutua entende ?
B - Ok, é um dragão invisível flutuante... Mas eu também não estou ouvindo ele nem respirar.
A - Verdade. Ele é silencioso.
B - Hum... é um dragão invisível flutuante silencioso.
A - Isso.
B - Por sorte eu trouxe aquele meu sensor de infravermelho para detectar o calor dele.
A - Não vai rolar.
B - Não ?
A - Não. Ele não emite calor.
B - Então é um dragão invisível flutuante silencioso frio...
Já ficou chata a conversa, posso parar aqui. O ponto central está mostrado: afirmações extraordinárias demandam evidências extraordinárias. Não é apenas uma questão de Ciência ou de bater sem dó, como eu costumo fazer, em religião. É uma maneira de viver e ver o mundo.
E no dia a dia, nas pequenas coisas ? As pequenas coisas são, por assim dizer, pequenas. Essa minha amiga, que eu conheço há mais de 15 anos, nunca me mostrou um documento com foto. Então, como eu sei que o nome dela é aquele mesmo ? Eu tenho fé na afirmação sobre o nome dela ?
Isso é apenas uma espezinhada semântica. Quem me faz esse tipo de pergunta com essas palavras, sabe que isso me incomoda, então o faz de modo intencional. Sabe que eu não gosto dos termos "fé" e "acreditar". Muitas vezes espera, apenas com a intenção de rir, um deslize verbal da minha parte. Não terão. No caso, eu a chamo pelo nome que ela se apresentou a mim, tanto tempo atrás. Se ela mentiu esse tempo todo, porque seria eu o alvo das risadas e dedos em riste? (Tranquila, amiga ! Sei que a pergunta foi genuína da tua parte).
Então é fácil aceitar a informação prestada e seguir em frente. Não, não peço o RG de cada pessoa que conheço na vida. É possível conduzir as coisas com leveza e apenas deixar a eterna margem para dúvida, uma das medidas mais saudáveis que a seleção natural deixou em nossos cérebros.
Certamente não saio acreditando em qualquer coisa, e gosto de me apresentar como "o homem de nenhuma fé".