Hipermodernidades 4

lfsarmento(42)
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Todo o passado é reciclado em função das novas exigências do consumo, da festa, da exuberância, que falseia a possibilidade de cada um na ribalta do poder.

Na sua relação com a vida doméstica, mulheres e homens reinventaram novos espaços de tarefas individuais num consumo do tempo que impõe uma nova ordem que implica consequentemente uma nova estética da vida comum.

Não se trata tanto de uma reciclagem dos valores do passado, mas de uma transformação radical nos meios mais informados, mais cultos e, necessariamente, não conservadores. Infelizmente, no mundo do trabalho, a maioria das entidades patronais, em nome da gula de poder, impossibilita esta transição num universo hipermoderno que estabilize a indiferenciação de géneros no exercício de todas as funções e responsabilidades. O mundo avança entre o bem e o mal. E as forças conservadoras e reaccionárias ao perceberem o perigo que tais mudanças implicavam nas lideranças que lhes são favoráveis querem fazer recuperar velhos conceitos de escravização moderna e humilhação que o tempo histórico não perdoará.

Desenvolver não é destruir. Criar não é aniquilar. Evoluir não é exterminar.

Os grandes avanços tecnológicos deveriam ter como objectivo no universo humano o alívio do esforço de homens e mulheres para que as suas vidas fossem recuperadas na aplicação cultural dos novos tempos. Mas as chamadas elites empedernidas em poderes herdados utilizam as novas tecnologias como arma mortífera ao serviço do desejo. Desejo pornográfico e de prazer viciado que o domínio sobre homens e mulheres encerra, o que retrata a debilidade do carácter infectado por falsos pergaminhos de apelidos que, na maioria dos casos, oculta actos de pirataria, traição e assassínio. Ou seja, toda uma história do crime organizado que tem vindo a sustentar os poderes há séculos.

Modernizar já não é sinónimo de qualidade humana, antes pelo contrário. Os «valores tecnológicos» estão a fazer definhar os valores humanos, conduzindo as sociedades para um espaço vazio, para uma terra de ninguém, para uma ideia do nada, para um niilismo aberrante.

E se alguns pensadores acreditavam que os valores dos direitos humanos não iriam tremer e cair perante a hipocrisia das sociedades tecnológicas e da abastança de minorias, veja-se o exemplo dos refugiados da destruição do Médio Oriente cuja recepção é negociada com ditadores como se fosse gado para abater em diferentes matadouros. E quem assina estes contratos são os líderes europeus de raiz conservadora e reaccionária em aliança com falsos socialistas que, em nome da sua prosperidade particular, traíram os princípios e valores humanistas que estiveram na sua origem.

E se antes havia, mesmo nas chamadas elites, uma vontade pelo saber, hoje, na sociedade do espectáculo, a sua preocupação foca-se na imagem da aparência e na preocupação de agradar e de se ser reconhecido, não por uma obra realizada, mas pelo simples prazer de se ser reconhecido por coisa nenhuma. E o que é paradoxal é que o reconhecimento é feito entre proxenetas e vampiros com o aplauso da população que ajuda a fomentar esse tipo de reconhecimento ao gastar o pouco que tem na aquisição de meios de comunicação que produzem e promovem estes eventos que coroam inexistências sociais, políticas e culturais. Este tipo de reconhecimento de hedonistas por hedonistas, profissionais de festas e festivais que alguns meios alimentam nas suas páginas ou ecrãs, apontam para uma vacuidade do entendimento de si-mesmo, conduzindo os seus protagonistas a uma riqueza material, através de uma relação de interesses obscuros, e a uma miséria ética e moral pela ausência de quaisquer valores humanos na sua conduta infame.

Tudo parece estar reduzido ao consumo desenfreado de prazeres como um prazer inadiável. E é aqui, neste momento, que o discurso ideológico faz todo o sentido. Em nome de uma democracia inteligente.

Luís Filipe Sarmento, Gabinete de Curiosidades, 2017

Foto: José Lorvão

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