As complexas paisagens sociais do presente levam a uma perda constante dos sentidos: já não há discursos que tranquilizem nem sequer as «overdoses» do palavreado vazio da espiritualidade cujos protagonistas exibem despudoradamente a ingenuidade da ignorância.
Tudo passa por consumos excessivos que as modas impõem. Nunca se viu tantos líderes espirituais, tantos gurus, tantos manipuladores do futuro. O hiperconsumo dos anseios espirituais revela o obscuro universo daqueles que passam a vida a desejar «muita luz, muita luz no teu caminho» a troco de uma nota de cinquenta ou de cem euros. Aceder ao plano da transcendência está cada vez mais caro. Paga-se com o despautério o futuro que nunca chega em forma de folheto de agência de viagens. A hora de uma consulta ilusiona a fome nocturna.
A moda dessubstancializa o ser, infantiliza-o com as suas «fraldas» de marca, seja um deus, uma gravata, um relógio, uma carteira, um carro, uma casa, um bairro, um lugar de férias, um sonho; o selo é uma assinatura «divina» que conquista o fiel crente que consome o que lhe enfiam pelos olhos os estrategas do hiperconsumo.
A sacralização do privado exibido no domínio público levou à fractura da solidariedade que as ideologias humanistas estruturadas defendiam. A promoção de uma tal sociedade mais flexível num mundo de diversidades conduziu o ser a um individualismo hipermoderno através do consumo desenfreado de emblemas como se eles sustentassem o corpo da dignidade humana numa ilusória ascensão de classe. E, assim, tudo se consome sem resistência. O capital é derramado nas estruturas mascaradas dos mercados financeiros porque eles próprios são discurso da moda agiota. A crítica inteligente deixou de ser olhada como modelo, passando a um consumo opcional e dando lugar a uma híper-intoxicação que credibiliza o discurso das ciências ocultas como portal de felicidade, institucionalizando a fraude no seio dos pobres de espírito. Sabemos, hoje, de que se riem os cleptocratas do Ocidente e porque se opõem a um ensino público de qualidade e a uma educação de excelência. Na oração do submisso sustenta-se a híper-riqueza do canalha.
Luís Filipe Sarmento, Gabinete de Curiosidades, 2017
Foto: José Lorvão