— Olhe...
Disse ele quase sussurrando e fazendo um gesto muito suave com a mão...
Vi que próximo, na margem, estava sentado alguém. Fiquei rígido no mesmo instante espreitando. Quem estaria ali? Percebi que era alguém pequeno. Talvez um anão. Esfreguei os olhos e notei que parecia ser ainda menor, o que não fazia sentido. O pequeno ser observava a correnteza azulada das águas e balançava o próprio corpo sutilmente como se dançasse.
O brilho do sol do entardecer ofuscava-me a visão, mas então uma nuvem cobriu o sol e pude ver a criatura com mais detalhes.
Tinha um chapéu pontiagudo, roupas cor de palha, olhos grandes muito vividos e sorria. Sim, um enorme sorriso na boca como que extasiado. A linha da boca era longa e ele parecia olhar para o além. Seu olhar também era de admiração. O vento balançava seus longos cabelos avermelhados e também sua roupa esfarrapada de palha.
Eu não acreditava no que via, pois o ente tinha uma pele esverdeada e ao que tudo levava a crer tratava-se de um duende ou gnomo. Sou muito cético e para mim ver aquilo de maneira tão clara foi um tremendo choque.
Fixei o olhar e a cena ficou ainda mais nítida. Por um período de tempo que me pareceu interminável eu observei o duende em seu passatempo de admirar em êxtase as ondulações do rio.
De repente movi um pouco a cabeça e do nada, de um instante pra outro, toda a minha perspectiva pareceu de algum modo se endireitar. No mesmo momento percebi o meu engano. Não havia duende nenhum, tudo não passara de uma ilusão de ótica e o que pensava ser uma entidade nada mais era que um tronco preso ao chão na margem do rio, um tronco retorcido, cheio de musgo, com partes molhadas e avermelhadas que balançava ao vento e ao movimento das ondas.
Me aproximei sorrindo, contente com a minha descoberta, e encostei o pé no tronco. Me voltei para o Sr. Souza e disse satisfeito:
— Veja, é só um tronco que balança, preso entre a água e a margem do rio.
Mas Sr Souza pareceu não achar graça nenhuma na minha descoberta. Ele estava muito sério, me olhou com desdém e emendou:
— Grande coisa ! Vamos embora....
E seguimos o resto do caminho calados...
Mais tarde sentados ao pé da fogueira ele finalmente quebrou o silêncio e disse:
— Hoje o espírito lhe deu uma estupenda oportunidade de Desfazer. E você estava indo bem. Infelizmente você desperdiçou sua chance quando endireitou a sua visão, e voltou ao seu hábito de Fazer. Se continuasse, quem sabe o que poderia encontrar ? E que mistérios e poderes não lhe seriam revelados? Da próxima vez precisa estar atento para aceitar o presente do espírito, manter a sua visão a fim de Desfazer o mundo. Seu objetivo no momento é Desfazer completamente o mundo e hoje você esteve muito perto de alcançar este feito.