Uma das poucas vantagens de envelhecer é a experiência de já ter vivido situações semelhantes ao longo da vida. Poucas coisas surpreendem.
Eu nasci na década de 80, fim da ditadura militar e início da abertura democrática no Brasil. Conheço bem crises políticas e econômicas. Em muitos momentos, o que mais importa é a economia, já que influencia muito mais a nossa vida do que decisões que terão reflexo a longo prazo.
Assim, a avaliação de um governo passa diretamente pelo supermercado. Se dá para encher o carrinho de compras sem gastar o salário todo, o governo está ótimo. Não interessa quem seja o presidente. Caso contrário, o governo está péssimo.
Meio ambiente, direitos, planejamento, cultura, educação são secundários no curto prazo. O que impacta no dia-a-dia é segurança, emprego e economia. E quando estes últimos não vão bem, a culpa sempre será do governo atual. Mesmo que não seja.
Eu tenho mais ou menos a mesma idade que o Partido dos Trabalhadores, o maior partido de esquerda do Brasil e, provavelmente, da América Latina. Destaco isso porque é justamente o partido que está no centro de toda disputa política no país desde a redemocratização.
O trabalhismo era muito forte antes da ruptura em 1964. Nomes como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Leonel Brizola estavam entre os políticos mais importantes do país. No cenário internacional, o mundo se dividia entre capitalistas e comunistas. E não é segredo para ninguém que os Estados Unidos lideravam o mundo capitalista e promoveram golpes de estado em toda a América Latina.
Depois de disputar diversas eleições durante os anos 80 e 90, o Partido dos Trabalhadores ganhou força nas grandes capitais e começou a se tornar protagonista nas disputas estadual e federal. Era a fase da utopia, da mudança, do poder para o povo novamente.
Nos anos 2000, o partido dominou a política nacional e regional por todo o país. Aqui começa a polarização, quando o debate de ideias e propostas importa menos do que quem está no poder e o impacto disso no emprego e na economia.
Neste momento, cada eleição se torna uma batalha campal pelo governo dos próximos quatro anos. No cenário internacional, neoliberalismo e privatizações estão na pauta em contraposição ao progressismo e à social democracia.
No Brasil, um partido social democrata, mas alinhado ao neoliberalismo e às privatizações se contrapõe ao trabalhismo e à esquerda tradicional. Depois de dois governos Lula, com crescimento econômico, os governos Dilma não seguem a mesma linha e a conciliação com setores mais conservadores, o que leva inevitavelmente a mais uma ruptura institucional.
Depois de um governo de transição para um modelo de corte de gastos na tentativa de recuperar a economia, começa a surgir um movimento à direita. Nomes como Margareth Tatcher, Friedrich Hayek, Milton Friedman, Ludwig von Mises, Edmund Burke, Roger Scruton, Thomas Sowell e Alexis de Tocqueville voltam a ser discutidos como alternativa às sucessivas crises econômicas.
O combate à corrupção se torna a discussão mais popular e a justificativa para o combate aos governos progressistas, mas com a crise econômica como real motivação para uma mudança na política e nos rumos do país.
Com o surgimentos das redes sociais, movimentos contra a corrupção e governos autoritários se espalha mundo afora. No Brasil, não é diferente com o surgimento do Movimento Brasil Livre, que começa a movimentar as redes sociais e as manifestações de rua.
No entanto, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos acelera o movimento de radicalização e potencializa um guinada à extrema direita. No Brasil, um ex capitão do exército, congressista há 30 anos defendendo o conservadorismo, é catapultado ao centro do debate político.
Neste momento, o debate capitalismo versus comunismo se torna novamente o posicionamento mais importante nas discussões políticas, juntamente às pautas conservadoras e religiosas. Serão justamente esse tipo de conteúdo que dominará os conteúdos nas redes sociais e será utilizado à exaustão por políticos de partidos da direita.
O combate à corrupção segue como pauta inicial, mas com o conservadorismo e a pauta da moralidade como pano de fundo. Políticos mais atentos a esse movimento se unem e capitalizam votos e cargos políticos. Tendo identificação ou não com o discurso.
Até os demais partidos e ativistas políticos perceberem, serão varridos pela onda conservadora sem nem entenderem o que está acontecendo. É assim que funciona seja no Brasil ou no resto do mundo onde tiver eleição agendada.