Lá nos idos da década de 90 lembro de ganharmos um laboratório de informática na escola pública em que eu estudava. Vivia trancado a sete chaves, com pouquíssimas visitas anuais de algumas turmas por ali...pensando bem estava mais para museu do que para laboratório. A gente ligava o PC, mexia um pouco no Paint, jogava um Campo Minado, escrevia e diagramava um parágrafo no Word e pronto, tinha que desligar e voltar para a sala de aula. Tanto que quando tive o primeiro PC em casa tive que ir fazer curso de digitação, Windows e MS-DOS em escolinha de informática, porque na escola regular nunca aprendi nada.
Mais de 20 anos depois, quando pergunto para o meu filho como são as aulas de informática dele, vejo que não evoluiu muita coisa em termos didáticos e pedagógicos. Claro que ele tem acesso a ferramentas online e programas bem mais avançados do que eu na minha época. Dependendo da escola rola até umas aulas de programação, desenvolvimento de apps, aulas gamificadas e outras modernidades educacionais. Algumas escolas trocaram os laboratórios de informática por tablets individuais usados durante as aulas em classe.
Acontece que os profissionais que estão na sala de aula com essas crianças são em sua maioria da minha geração, a última geração dos nativos analógicos. Alguns espécimes desta geração já levam no DNA a relação simbiótica com a tecnologia, mas são a minoria. A maioria de nós precisou e precisa dispender um certo esforço intencional, direcionado e contínuo para acompanhar as novidades da área, e ainda assim não conseguimos entender muita coisa (essa afirmação parece descabida se pensarmos no nível geral dos steemians, mas analise os facebookers e você concordará comigo).
E eis que a primeira geração nativa digital está a caminho ou iniciando a vida adulta, ocupando aos poucos os espaços que antes eram nossos. Estão se tornando professores, desenvolvedores, pesquisadores, empreendedores, multiplicadores, profissionais liberais, consumidores, técnicos... gerando diferentes tipos de valores para a sociedade e também extinguindo antigas funções que se tornaram obsoletas e criando tantas outras que nem sequer sonhávamos que poderiam vir a existir.
Nós, da última geração dos nativos analógicos, legamos um arsenal de conhecimentos e instrumentais potentes, os quais já estão e serão cada vez mais explorados, otimizados e expandidos pelos primeiros nativos digitais da história. Fiz um breve post sobre gamificação e blockchain, pois eu tenho a impressão de que os nativos digitais se dão muitíssimo bem com essa coisa da gamificação, visto que os elementos de jogos fizeram parte do desenvolvimento da maioria deles - de forma consciente ou inconsciente, como bem observado pelo comentário que o @matheusggr deixou lá no post. Acho que vem muita coisa gamificada por aí pela frente, aliás, já está vindo - mas isso deixo para um outro post.
Os millenials, como também são chamados por aí, já nascem íntimos da tecnologia (me impressiona como as crianças de hoje são otimamente precisas na manipulação de touch screens, mas pessimamente estabanadas em amarrar os próprios sapatos), e praticamente não precisam de esforço intencional para aprender muita coisa quando o assunto é tecnologia. Me espanta que, dependendo da intimidade com algum dispositivo ou aplicação, eles não precisam de atenção e nem de concentração para fazer algo, eles fazem várias coisas ao mesmo tempo sem nem perceber que fazem. Não estou aqui para discutir os benefícios ou malefícios disto, mas é um assunto interessante que pode ser discutido também em outro momento. O fato é que os nativos digitais já estão devidamente fenotipados e aptos a criar e manusear as novas tecnologias num nível nunca antes visto na nossa história do ser humano.
Agora é passar o bastão e confiar na epigenética, não porque estejamos aposentando ou sejamos obsoletos (muito longe disto), mas porque a chegada dos millennials no ambiente economicamente produtivo, inegavelmente vem trazendo mudanças estruturais e substanciais nas forma como nos relacionamos e geramos valor para sociedade na qual vivemos.
Se por um lado a constituição identitária e intersubjetiva dos nativos digitais é permeada desde o seu nascimento por símbolos e dinâmicas que extrapolam o nosso entendimento (e paciência), e os capacitam a realizar coisas que para nós seria muito mais difícil... por outro lado os últimos nativos analógicos carregam dentro de si vivências e sabedorias que estão muito além da percepção imediatista e do automatismo das ações e reações reinantes nos dias atuais.
Em meio século estaremos iniciando nosso período de extinção, porém a visão além do alcance da espada justiceira ainda é nossa.